Bolsonaro e a necessidade de termos um museu da escravidão no Brasil.


O presidenciável deixou subentendido ontem, no programa Roda Viva, que ninguém tem dívida histórica com os negros pois os Portugueses não chegaram a pisar na África, mesmo que o conceito da escravidão moderna tenha sido inventado pelos lusitanos.

A escravidão é um conceito de retirar a liberdade de um povo e sujeita-los a condições de servidão e humilhação retirando a dignidade de um povo em prol do poder. Tal prática existe há milênios e foi empregado por diversos povos, contudo nada se compara à escravidão moderna, mais conhecida como escravidão negra. Tal processo foi iniciado pelos Portugueses no século XV quando começaram a adquirir negros no Sudão através da exploração da Costa da África e a colonização das Américas, incluindo o Brasil.
A partir da iniciativa dos lusitanos, outros impérios entraram no processo de comércio triangular, onde se escravizavam os negros na África, os levavam para a América e Europa, daí então foram 300 ANOS até o ápice do tráfico de seres humanos. Entre 1781 e 1790, importaram-se mais de 80.000 escravos POR ANO em diversos países. A abolição da escravidão iniciou-se em 1803 com a Dinamarca, o que aconteceu no Brasil apenas 85 anos depois.
A foto acima é o registro do escravo Peter em Louisiana, EUA, após a agressão, ele precisou de 2 meses para se recuperar dos ferimentos.
Segundo o site SlaveVoyages houve um fluxo com cerca de 10 MILHÕES de escravos ao redor do mundo em 3 séculos. No Brasil, 1 milhão e 700 mil africanos foram trazidos para a Bahia, além disso, quase 200 mil morreram durante a travessia. Sabe-se também que perto do fim da escravidão, 60% dos negros trazidos eram crianças, além disso 1 a cada 5 pessoas escravizadas no mundo atracava junto com os navios negreiros no Rio de Janeiro.
O processo, como bem se sabe através de registros históricos, não foi pacífico, pelos dados dá pra ter ideia do tamanho do estrago causado e da mancha e dívida que o mundo tem com os negros, mesmo porque o processo de liberdade não ocorreu de forma digna, com intuito de dar plenos direitos e condições de vida e trabalho ao povo recém liberto, muitos saíam apenas com a roupa do corpo, o registro das primeiras favelas no Rio de Janeiro remonta ao fim da escravidão, segundo a pesquisa do professor Doutor, Andrelino Campos, os morros eram os locais próximos de onde era oferecido trabalho.
Com isso podemos raciocinar sozinhos que as consequências da desigualdade socioeconômica, (incluindo que a maioria da população pobre no país é negra) se dá graças à escravidão, com dados de apenas 19 anos atrás, mais de 100 anos depois do fim da escravidão:

 Trazendo para o ano que estamos, 2018, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de domicílios o número de desempregados chega a 13 milhões, sendo 64% deles negros, em 2010 62% da população branca com mais de 18 anos possuía ensino fundamental completo, na população negra esse percentual decai para 17%. Segundo a pesquisa, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal dos negros no Brasil tem dez anos de atraso comparado ao dos brancos.
Entre muitos outros dados, que se colocados nesse post daria conteúdo suficiente para mais de um livro, podemos ver de modo amplo que o Brasil precisa e muito de uma política especial dirigida à população negra, temos sim uma dívida histórica e a cor ainda é estrutura de desigualdade social, portanto ter como candidato alguém que NEGA essa dívida histórica e é tão reacionário a ponto de não querer enxergar os dados e interpretá-los, nos coloca na beira do abismo de um pensamento simplista de que o Estado não precisa ter uma política de inclusão social. Bolsonaro de forma sutil culpabiliza uma parcela ínfima de negros que participaram do lado opressor da história e se esquece dos mais de 10 milhões de negros que foram arrancados do seio de seu lar e de sua nação para serem dizimados. Precisamos mais do que nunca de museus que retratem a realidade da escravidão para que pensamentos assim não sejam aplaudidos e sim execrados.

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